por Filipa Serôdio Pinheiro
Participei no Congresso dos Urbanistas, promovido pela APU – Associação Portuguesa de Urbanistas, que teve lugar a 30 de outubro, na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, e saí com uma forte sensação de que há caminhos possíveis e inspiradores para enfrentar os grandes desafios territoriais de hoje: habitação, valorização do solo e crise climática.
Um dos momentos mais marcantes foi a conferência de Paulo Fernandes, presidente da Câmara Municipal do Fundão, que apresentou o caso do seu município como exemplo de como os programas de habitação podem ser motores de desenvolvimento territorial. A sua visão pragmática e extremamente carismática, é um testemunho vivo de que o interior pode ser um espaço de oportunidade.
Face à crise habitacional, olhar para o interior não é fugir do problema, é assumir uma alternativa sustentável. E com casos de sucesso como o do Fundão (que se tem distinguido pela atração de empresas tecnológicas, pelo apoio à fixação de jovens e pelo investimento em reabilitação urbana) percebemos que esta alternativa é real.
Também destaco a apresentação de Pedro Teiga, sobre a recuperação ecológica do Rio Este, em Braga. Este projeto lembra-nos que as chamadas NBS (Nature-Based Solutions) são, muitas vezes, um regresso à sabedoria ancestral das nossas comunidades. Neste caso, devolver o rio à cidade não é apenas uma obra técnica, é um ato de reconciliação entre urbanismo e ecologia.
A operação fundiária florestal em Pampilhosa da Serra, apresentada por Rui Simão, é outro exemplo marcante de como os pequenos municípios do interior podem liderar estratégias inovadoras de reorganização fundiária, combate à fragmentação e prevenção de risco de incêndio, um modelo replicável e de utilidade nacional.
Também o Agroparque Terras da Costa e do Mar, em Almada, iniciativa apresentada e desenvolvida por Duarte Mata, prova que a integração entre agricultura sustentável, resiliência climática e desenvolvimento económico local é possível e desejável. Ao articular produção, inovação e gestão territorial, este projeto aponta caminhos para um novo modelo rural, mais resiliente e mais atrativo para as novas gerações.
E não posso deixar de mencionar a intervenção da Arquiteta Teresa Andresen, que abordou com clareza e urgência o papel do ordenamento e da gestão do solo rústico no contexto da emergência climática. A sua defesa da paisagem como bem coletivo e estruturante reforça a importância de planearmos com sensibilidade e responsabilidade.
Não posso deixar de referir que todas as intervenções ao longo do congresso foram exemplos claros de como o bom planeamento territorial pode, efetivamente, traduzir-se em mudanças concretas e positivas no desenvolvimento local e nacional, provando que há conhecimento, vontade e prática no terreno para transformar o nosso território com visão e equidade.
Este congresso foi, mais do que um espaço de reflexão, um apelo à ação. Planeamento não é só regular: é estrategicamente transformar. É dar ferramentas às comunidades para resistirem, adaptarem-se e prosperarem. E o interior, tantas vezes esquecido, é uma peça central dessa equação.
Parabéns à APU por este congresso tão relevante.